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Todo Errado – rock-balada-sertanejo-mariachi, com violinos chorando mágoas de amor. Retrato da paixão obssessivo-compulsiva e da maior dor humana que é a da rejeição. Como diz Thomas Mann: – "O amor está em quem ama e não no ser amado!!!!" E como dizia meu pai, Paul Mautner: "Não importa o que você fizer, estará sempre errado."
Feitiço – esta é, para mim, a canção que define poética e ideologicamente este disco. Samba-exaltação máxima, feito das mil contradições harmonizadas pelo feitiço maior chamado Brasil!!!! Aquele abraço. Samba que exalta a aquarela de cores de todos os batuques e é um samba-resposta na tradição tão criativa de polêmicas entre sambistas, em forma de provocação amorosa ao imortal samba de Noel Rosa e Vadico "Feitiço da Vila". Ao invés de ter feitiço decente que prende a gente, nosso samba tem feitiço indecente que solta a gente. É a alma do Tropicalismo que já foi criticado até pelo uso de guitarras elétricas na MPB. Mas aqui tudo sucumbe ao abraço da enlaçante amizade, novamente e sempre, aquele abraço. Zumbi come Zabé, Zabé come Zumbi, isto nos leva para a segunda abolição da escravidão simultaneamente com a inclusão de todas as periferias, do Mangue bit a Vigário Geral, do Fundo de Quintal ao Candeal, Candeal que é também uma obra social e cultural para incluir os excluídos, dando-lhes instrução e profissão em direção à cidadania e dignidade criada por Carlinhos Brown, exemplo a ser seguido!!!!
É a confederação dos batuques!!!!
Manjar de Reis – Lundu enlouquecido, futurismo transfigurado de trio elétrico, misturado com sons de um rococó imperial, cheio de sacanagem sutil, nos tempos clássicos chamado de malícia. Sempre o amor!!!!
Tarado – Noites do Oriente se abatem fabricando a miragem de um harém democrático onde o poeta tarado e reabilitado em sua dignidade de tarado, reabilita em quase divina e erótica missão as garotas excluídas, porque até então eram consideradas como feias, ou como disse o genial Vinicius de Moraes: "As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental." O tarado as reabilita e as inclui na confederação da sensualidade geral. Bolero mestiço, bossa nova amazônica, onde as dunas de areia viram ondas musicais.
Maracatu Atômico – Hino do porta-estandarte do ser que é a cultura brasileira eterna e do século XXI. Saúda-se aqui tanto a ecologia assim como o futurismo, a energia eólica e a energia atômica, a poesia bucólica e a força da vida que se irradia da floresta amazônica. E é fundamental a negritude, porque é no quadro-negro que é todo negro que eu escrevo seu nome só pra demonstrar o meu apego!!!!!
Namorado – Rock’n’roll antropofágico rollingstoniano tropical, onde se intercalam, como em um quadro surrealista, duas paisagens, sendo a primeira, uma alocução irônica e amorosa para Carlinhos Brown, com a descrição de uma maravilhosa e sedutora mulher sendo a segunda, um jardim chinês de um paraíso pagão do império celeste, da cor azul da felicidade, onde domina o fatalismo que parece brotar dos rochedos da paisagem panteísta e a sua brisa do entardecer.
Urge Dracon – hino de auto-ironia e de auto-enaltecimento justificado. Ironização dos totalitarismos e tiranias e ao mesmo espaço-tempo profeticamente correto e sagrado com toques de tambor para Oxalá!!!!
Urge Dracón – pode também sugerir a introdução de leis draconianas, ou na alma de cada um ou concretamente na palavra da lei escrita nos tribunais! Deixando de lado a ironia, é de nossa parte uma homenagem aos Procuradores da República, em sua heróica missão de purificar a República, acima de qualquer pressão ou injunção partidária, sem medo, como têm feito até agora!!!!
Coisa Assassina – Balada-funk do bem, violino de puro réquiem. Recordação da casa dos mortos, memórias das regiões tenebrosas. Conselho sem caráter de repreensão ou proibição, apenas maldição trágica, que, como Cassandra, amaldiçoa a coisa assassina. Conselho amoroso em forma de doçura trágica e, como todos os conselhos, talvez inútil. Mas, mesmo assim, fundamental, mesmo que inútil.
Homem-bomba – samba arquetipal de ritual de exorcismo contra o mal e propiciatório do bem. Descrição musical poética de duas opções, de duas dimensões, a dimensão do terror e a dimensão da democracia abençoada pelo amor, pelo Cristo Redentor e pelo bom humor que é o fator principal que introduz o relativismo que destrói todos os fundamentalismos das intolerâncias absolutistas e terroristas. É a hora undécima da conciliação e da reconciliação.
Lágrimas Negras – Novamente a negritude e a paisagem. O negro são azuis, blues, concentrados. Poços de petróleo, escuridões da noite, o astronauta da saudade, que usa uma estrela como brinco na orelha.
Eu Sou Doidão – Marchinha circense, homenagem aos palhaços de todos os tempos e um dos arquétipos de um dos vários cérebros que fingem ser um só do compositor. Homenagem ao Idiota de Dostoievski e lembrança eterna do Sermão da Montanha, que Jesus de Nazaré proferiu, vestido em manto púrpura dos reis e que começa dizendo: – "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles será o reino dos Céus!!!!"
Morre-se Assim – Brincadeiras com o derradeiro fim. Humor para consolo inevitável. Citação de frase do Barão de Itararé, inscrição do cemitério de Évora, e verso de Noel Rosa e Lamartine Babo, extraído da marchinha intitulada A.b. Surdo. Aula de português em forma de apresentação das conjunções adversativas, em forma de versos, desta marcha fúnebre funk esfuziante!!!!
Graça Divina – Se o Feitiço, a meu entender, é o manifesto poético-ideológico deste disco, a Graça Divina é o seu hino para o Senhor Deus invisível, da livre opção a cada segundo que faz existir o perdão permanente, o amor infinito, e a ressurreição a cada instante, mesmo para os ateus. Aquele que sempre inclui os excluídos e que, através de seu filho, Jesus de Nazaré disse também:" – Tive sede, tive fome, fiquei nu, fui doente, era estrangeiro!!!" E notem que é um negro anjo alado, atendendo aos justificadíssimos apelos daquele formidável bolero que pergunta porque o pintor de paredes que pinta anjos, não pinta anjos negros, angelitos negros, nas paredes das igrejas???? Fado-oração do Brasil Portugal Universal do Quinto Império de D. Sebastião perdido nas areias escaldantes de Alcacer-Kibir!!!!
Cajuína – O coração explode e implode. Poesia cristalina na paisagem do Piauí, que se torna o universo da emoção, com nó na garganta, eu canto rindo e chorando e assim também sai a voz do violino. O enorme pandeiro batucado por Moreno Veloso e o tambor do coração. Xote eslavo do riso entre lágrimas de Gogol e Dostoievski, de Torquato Neto a Mario Faustino.
Voa, Voa, Perereca – Marcha-rancho nostálgica e erótico-buliçosa de fábula infantil, de um Brasil antigo e eterno.
Hino do Carnaval Brasileiro – Síntese geral, manifesto total, saudação ecumênica-democrática, ampla geral e irrestrita das tolerâncias, inclusões, absorções, sincretizações, mistura tropical sagrada e consagrada. De todas as influências, maiorias e minorias, seguindo o grito de Gilberto Freyre: "Mestiço é que é bom!!!!"
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